domingo, 27 de junho de 2010

Os laterais portistas 2010/2011

Após termos visto, há uns dias, a questão relativa à baliza portista - e que já conheceu novidades importantes, prova das mudanças relativamente grandes que estão a acontecer este ano - vejamos, agora, as faixas laterais da defesa, para as quais o clube tem 7 jogadores, para 2 lugares mais 2 suplentes.
A ala direita deve ser a que vai conhecer mais transformações. Dos 4 homens com contrato, Miguel Lopes deve ser o único a permanecer. Contratado no início da temporada passada ao Rio Ave, assumiu um protagonismo maior do que o esperado. Acabou por jogar em 19 jogos, arrancando em 14 desses como titular, coleccionando 4 amarelos. Isto deveu-se à má época do Fucile, aos problemas em que esteve envolvido o Sapunaru e, diga-se, ao valor demonstrado pelo jovem lateral português. Acabou por se assumir entre as dificuldades que aquele sector viveu e fê-lo com alguma notoriedade. Falta-lhe ainda experiência e outra consistência, especialmente no balanceamento atacante e correspondente compensação defensiva, bem como nos cruzamentos efectuados, mas pode ser um fixo nos próximos anos, caso evolua em conformidade. E pode, também, estar encontrada mais uma boa opção para o lado direito da defesa da Selecção Nacional.
Depois sobram Fucile e Sapunaru. O caso de ambos acaba por ser similar na medida em que pouco evoluíram desde que chegaram ao Dragão e ambos deverão estar de saída. O uruguaio completou a 4a época no Dragão, onde chegou com 21 anos. Foi ganhando preponderância dentro e fora de campo, mas a sua evolução há muito que estagnou, na medida em que as mesmas virtudes e os mesmos defeitos continuam a ser-lhe apontados há muito. Infelizmente, sobra-lhe a displicência e esta época acabou por estar muito ligado a exibições confrangedoras, como a da Luz contra um inusitado Urreta e a de Londres, no Emirates, com o Arsenal, onde esteve directamente ligado a 4 dos 5 golos dos Gunners. Creio ser hora de dar por terminada esta ligação, a bem das duas partes. AVBoas terá dito que gostava de contar com ele. Fucile até está a fazer um Mundial em bom plano, sendo elogiado por um seleccionador que raramente recorre ao elogio individual para com os seus pupilos. Mas não creio ser benéfico mantê-lo, até porque podem render bom dinheiro e forjar uma nova dupla de laterais-direitos, renovada e reforçada.
O romeno Sapunaru é um caso parecido. Jogou muito pouco, nada evoluiu e sobrou a indisciplina, ao serviço do clube, na Luz, da Selecção e do Rapid Bucareste, dentro e fora de campo. O Porto não avançou para a compra da outra metade do passe e seria benéfico que se livrasse da parcela que detém. Há interessados, poupe-se em ordenados e contratempos.
Finalmente, na direita existe ainda um menino chamado Ivo Pinto. Considerado um dos maiores talentos da formação portista dos últimos anos, jogou, ainda júnior, pela equipa portista na Taça da Liga, em Alvalade, pela mão de Jesualdo, e foi emprestado na época transacta. Foi, contudo, vítima da errada e errante política de empréstimos da sad: começou no Gil Vicente e ainda antes do fim de Agosto rumou a Setúbal, nos últimos dias do tão desesperado como breve consulado de Carlos Azenha (conhecedor profundo das suas potencialidades). Ora, isto coarctou-lhe a época, na medida em que em termos regulamentares, não podia abandonar o Vitória para outra emblema da UEFA durante a época, evitando, assim, penalizações para a sua carreira e para o clube infractor que o inscrevesse pela 3a vez na mesma época. Conclusão: para um miúdo que precisa de jogar, para explodir e confirmar credenciais ou mostrar que não vale a pena o seu regresso... 147 minutos de competição, em 6 jogos, 1 deles a titular! Muito pouco e bastante reprovável. Parece que vai para a Covilhã; que jogue por lá, pelas mãos de uma lenda... do lado direito da defesa portista, João Pinto, e que o futebol português ainda vá a tempo de o aproveitar.
Assim, falta, a meu ver, um lateral-direito para o plantel. Num exercício rápido, sem efectuar grandes pesquisas, sugiro 3 nomes: Paulo Ferreira, experiente e conhecedor da casa e do campeonato, que chegaria e assentaria como uma luva; Mattioni, brasileiro do Maiorca, que jogou muito bem este ano, depois de uma passagem discreta pelo Milan; e o Garics, austríaco da Atalanta, de 26 anos, capitão da sua selecção há muitos anos, muito experiente numa liga como a italiana, jogador muito consistente e de equipa que se revelou como um dos melhores laterais do Calcio nos últimos anos. Mas isto são bitaites, apenas.
Na esquerda a questão está, a meu ver, mais facilitada. Álvaro Pereira e Addy têm todas as condições de ocupar os lugares que já trazem da época transacta. O primeiro foi o mais utilizado na época passada, com mais de 4000 minutos, em 45 jogos, onde marcou 1 golo e teve 13 cartões amarelos. Evoluiu consideravelmente ao longo da época, evidenciando-se pela capacidade física e subidas à linha, criando desequilíbrios. Tem jogado sempre no Mundial, com a sua selecção e é um dos valores seguros para a próxima temporada. O Addy só não foi ao Mundial, com o Gana, porque pouco jogou no Porto. Nele são depositadas grandes esperanças e creio que se deve manter no plantel.
Finalmente, espaço ainda para Benítez. Foi um erro de casting (de comissões duvido), está no San Lorenzo argentino e esperamos que accionem a opção de compra.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Perfeição ou Ilusão: Eis a Questão

Portugal fez história hoje: uma das maiores goleadas de sempre num Mundial, para Portugal, e a maior, até ao momento, desta edição do torneio. Portugal conseguiu concretizar práticamente todas as oportunidades que criou, algo extremamente raro. No entanto, há razões para passar da descrença para a euforia? Foi um sinal de perfeição ou uma ilusão? Para mim, esta é a questão que se coloca...

Hoje tudo correu bem (excepto o Miguel que esteve francamente uns furos abaixo dos seus colegas), toda a gente marcou, bonitas jogadas, golos bizarros, bolas nas traves...deu para tudo. Tiago esteve muito bem, Raul Meireles conseguiu quebrar o gelo, Ronaldo o enguiço com os golos, Coentrão mostrou a sua irreverência, Carvalho a sua classe e Hugo Almeida a sua utilidade. Se a equipa, na primeira parte, foi cinzenta, conseguiu demonstrar todo o seu poderio na segunda parte. Ninguém imaginava, ao intervalo, um desfecho com estes números.

No entanto, nós Portugueses, somos facilmente iludidos. Do outro lado estava a Coreia do Norte. Uma equipa sem tradição nestas andanças e uma das mais fracas do torneio. Apesar de mostrar uma boa imagem contra a equipa do samba, apesar de ter dado uma boa imagem nos primeiros 45min, mostrou também todas as suas fragilidades nos restantes 45min. É importante ver quem esteve do outro lado.

Face a isto, há três caminhos a seguir para os Portugueses: ser eterno crítico da selecção, ter fé ou andar iludido. Como tudo na vida, tento ir pela via do equilíbrio: tenho fé. Acho que há razões para ter uma esperança. Se no primeiro jogo, Portugal esteve muito pálido, muito longe do futebol que lhe é característico, já neste esteve noutra galáxia, pois venceu o seu adversário e conseguiu vencer-se: marcar todas as oportunidades que teve. Isto é atípico de Portugal mas típico de uma equipa fria, pragmática, racional e implacável. Geralmente, equipas com estas características chegam longe...

Ser eterno crítico é plausível. Numa selecção de todos nós, é óbvio que temos sempre uma solução para o que está menos bem. O que até é bom, é sinal que existem alternativas. O treinador não é grande espingarda, já tivemos equipas mais empolgantes, aceito e até concordo com todos esses argumentos. Mas face à exibição de hoje, teremos de ser sempre um povo pessimista?

O oposto também me parece negativo. Ganhar 7-0 a uma Coreia do Norte não apaga o cinzentismo escuro do nosso apuramento e do primeiro jogo. Não acreditemos que o Hugo Almeida, Tiago e outros jogarão assim todos os jogos. Nunca deram sinais disso.

Assim sendo, fico um homem de fé. Um homem com percepção das nossas limitações mas que, se aliarmos o nosso talento à sorte e ao momento, poderemos chegar longe. Ainda é muito cedo e descabido falar de "campeões" do mundo, mas ao menos o apuramento parece algo certo no grupo mais díficil do Mundial. Apesar do próximo jogo poder ser encarado como um amigável, pois a única questão (e importante) é ver quem é o primeiro e segundo lugar, creio que Portugal deveria encarar o jogo de uma forma muito séria e uma resposta positiva a um desafio tão exigente como o do Brasil mostraria à equipa, treinador e adeptos que há motivos para acreditar.

Perfeição ou ilusão? Prefiro pragmatismo goleador.

domingo, 20 de junho de 2010

A baliza portista 2010/11

Em pleno defeso fazem-se contas e avaliam-se opções para a época que se avizinha. Novas realidades, novos desafios, maiores ou menores transformações em perspectiva.
Falando da baliza portista, na minha opinião, deixava tudo como está. Pelo menos no papel. Mantinha a aposta no Helton, no Beto e no Nuno, pois creio serem três opções bastante válidas e que dão as seguranças necessárias face às ambições e tradição portista.

Na época que findou estes 3 senhores foram os donos da baliza portista. O Helton foi o que mais jogou, completando 32 jogos, entre Campeonato, Taça e Liga dos Campeões, somando 29 golos sofridos; o Beto jogou menos, ainda que tenha sido o que fez mais sombra ao habitual titular da baliza portista nos últimos anos, perfazendo 13 jogos, nas 3 referidas competições, com um saldo de 12 golos sofridos; finalmente, o Nuno, fez os 5 jogos da Taça da Liga, tendo sofrido 3 golos, os da nefasta final com o Benfica. Para a época que se avizinha mantinha, como disse, os 3 guarda-redes, ainda que sejam necessárias introduzir 2 alterações: terminar com a rígida hierarquia que ficou patente na era Jesualdo, aumentando a competitividade e a justiça na luta entre o Helton e o Beto, os 2 que disputarão a titularidade, a bem da equipa; promover o regresso à normalidade: 44 golos em 50 jogos em nada abonam a favor da estatística das últimas épocas. Urge fazer deste saldo da época transacta uma miragem e um acidente de percurso. Finalmente ao Nuno deve ser entregue um papel secundário, a que já se habituou, mas bem importante na gestão do grupo. É um jogador com grande peso no balneário, é bastante experiente e deve continuar a servir como pêndulo na liderança do plantel, apoiando a equipa técnica e promovendo a necessária união e motivação de todos, dentro da cultura do clube, de que é um símbolo.
Também com contrato mas sem hipóteses de entrar no plantel está o Ventura. Fez 29 jogos no Olhanense, sofreu 36 golos (mais 2 expulsões) e deixou uma imagem interessante ao serviço dos algarvios. A concorrência, porém, ainda não lhe garante um regresso ao Olival. Ainda que vá a estágio, devido às férias do mundialista Beto. Isto traz-lhe, a meu ver, alguma notoriedade e projecção. Não deixará de ser analisado pelo treinador, que ditará o seu futuro. A não servir, pois a análise será feita, então que seja já vendido ou lhe seja dada a carta de liberdade, pois manter jogadores por manter entendo que é política prejudicial a todos os níveis; caso haja interesse num futuro regresso, então que novo empréstimo lhe permita a ele e à equipa técnica perceber se é realmente um valor a ter em conta: novo empréstimo a uma equipa pequena não vale a pena, ainda que jogue sempre; mais vale mais competitividade, mais esforço por chegar à titularidade e mais hipóteses de brilhar num clube com mais ambições, com outras obrigações e mais aproximado da realidade portista (menos intervenções durante o jogo mas mais decisivas), do que novo arrastar numa equipa de fundo da tabela, preso por uma questionável ligação à casa-mãe!

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O Regresso aos Maus e Velhos Tempos

Até então, tenho permanecido calado e expectante em relação à nossa selecção. Quando todos criticavam, tentei permanecer em silêncio à espera que os sinais dados não se concretizassem. Infelizmente, começo a juntar-me ao resto dos Portugueses...

Portugal contra a Costa do Marfim provou uma coisa: o ranking da FIFA nada significa. O 3º lugar de Portugal é tão falso como o discurso de Jorge Jesus de que vai voltar a ser campeão (foi apenas uma pequena alfinetada...). Com Queiroz voltamos a ter uma selecção verdadeiramente Portuguesa: há talento mas não há treinador. Com uma ligeira diferença,  cada vez há menos talento.

Portugal é extremamente defensivo. Se a convocatória já assim o mostrava, em campo, não deixou margens para dúvidas. Os jogadores assumem posições rígidas, poucas corridas a abrir e a buscar jogo, os jogadores jogam sem alegria e não há aquele toque de bola que os Portugueses costumam ter.

Estou convencido que o talento de Portugal está a precisar de ser renovado e há jogadores que precisam de ganhar dimensão antes de jogarem ao seu melhor nível na selecção. No entanto, aquilo que a equipa é pode ser muitas vezes uma questão de atitude. Se tiver uma atitude dominadora e ofensiva, vai querer trocar a bola no meio campo do adversário, vai ter a defesa subida, vai haver dinâmica...etc. E nada disto existe em Portugal. Nada.

A Costa do Marfim pôs e dispôs e, naturalmente, face a grandes nomes, também ficaram satisfeitos com o empate. E acredito que essa foi a nossa sorte.

As palavras de Deco, obviamente que não deveriam ter sido proferidas a céu aberto, fazem todo o sentido. Queiroz não sabe o que faz. Como é que, com tantas alternativas para meio-campo, vai entrar Ruben Amorim? O que acharão os outros que já lá andam a treinar há um mês? Para jogar 10min, ia fazer a diferença? Como andará a moral do grupo...

Que alternativas tem Portugal nos extremos? Ninguém..Porque não arriscar num Ricardo Quaresma, com a sua irreverência? Para quê tantos defesas e médios defensivos? Porque não trocar a bola entre Meireles, Deco e Pedro Mendes? Porquê não subir os centrais para a zona do meio campo?

Portugal foi fraquíssimo e acho que não tem pernas para andar. Espero estar errado.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Jesualdo e Villas Boas

Jorge Jesus chegou no ano passado ao Benfica, viu e venceu. Domingos também, no Braga, ainda que não tenha alçado nenhum troféu. Porto e Sporting falharam e mudaram de timoneiros, Paulo Sérgio entrou no Sporting, Villas Boas no Porto.
No Porto saiu Jesualdo Ferreira. Com ares de ter sido uma das decisões mais difíceis dos últimos anos, mas na verdade não. Há muito que o experiente técnico tinha o destino traçado, era óbvio. A sua permanência no clube prolongou-se para além da norma, os 2 anos do Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira, Fernando Santos e José Mourinho e isso foi benéfico, pois daí adveio um Tetra, mas também foi trágico, com a falhada conquista do Penta.

Quem se habituou a ver o Porto do Jesualdo cedo se apercebeu do seu profissionalismo, do seu empenho, de toda a sabedoria acumulada e de toda a energia posta em conquistar os títulos que figuram ou brilharam longe durante toda uma carreira. A sua chegada, para o próprio, foi como uma recompensa dos deuses da bola, pelo trabalho feito ao longo de uma carreira entre selecções e equipas menores e maiores, e pelos dissabores vividos em tardes como a do Gondomar na Luz, para a Taça. Assim, foi natural a alegria manifestada pelos títulos de campeão nacional, bem como a mitificação do homem a partir do momento em que se tornou o primeiro treinador pátrio a ganhar três campeonatos de enfiada! Nascido em Mirandela, desde cedo se associou Jesualdo às selecções e a Queirós e ao Benfica e a Toni. Porém, isso não foi impedimento para a sad apostar em si e a prova é que Jesualdo se mostrou um grande portista. Aprendeu a gostar do clube, da sua cultura e modus vivendi e operandi, rendido à competência da estrutura, agradecida, em plano de destaque na hora da despedida. Contudo, isso não foi suficiente para granjear o respeito e a admiração plena dos adeptos. Até ao Tetra foi mesmo visto de soslaio na maior parte do tempo e só mesmo aquela generosa atitude do Bruno Alves na Figueira da Foz, na noite de Todos-os-Santos de 2008, após a derrota com a Naval, o terão salvado da saída forçada do comando técnico dos Dragões.
Há que destacar, todavia, a postura que sempre assumiu e o legado que deixou. Para mim, foi o treinador da década, já o disse várias vezes. Mourinho pôs e dispôs; Jesualdo só teve direito a refazer. Não me lembro de ninguém com tanto sucesso por essa Europa fora, quando em 3 defesos lhe sonegam, às prestações, Pepe e Anderson, Bosingwa, Assunção e Quaresma, Lucho e Lisandro! O estilo não foi o melhor, ou aquele que o século XXI exige. Sobrou pela discrição e abnegação, faltou o arrebatamento das massas e o charme que hoje suplanta a valia técnica. Sic transit gloria mundi!
E só assim se compreende a sua saída. O Porto não foi brilhante a jogar nestes 4 anos. Relembraremos sempre aquela primeira parte em Stamford Bridge, quando o Quaresma nos fez sonhar e o Helton nos acordou à força após o intervalo; ou os 90m de Manchester, onde o Cissokho e seus pares pareciam extraterrestres! Mas faltou mais posse de bola, mais futebol de contenção, mais bola escondida do adversário, menos hierarquia na baliza e noutros fixos no onze, ainda que bem longe da forma. Mas foi um Porto muito competente e sério, dominador dentro de portas e digno representante nacional nessa Europa do futebol.
Perde-se um grande senhor do nosso futebol, uma velha raposa, cheia de sabedoria e argúcia, mas o desgaste era evidente e o Jesualdo estava muito só. Sem a confiança e o respeito dos jogadores mais preponderantes, sem a cobertura da Direcção e o respaldo dos adeptos. Sobretudo dos que nunca souberam apreciar a sua competência e trabalho, sempre assobiaram e viram no Mourinho e em Jorge Jesus o que é bom. Ou talvez não! Jesualdo não merecia sair assim, mas é o futebol que temos, a sad que temos e o mundo que vivemos. Merecia sair em grande, saiu de forma cinzenta, o esforço para maquilhar a retirada foi valoroso mas falacioso também. Obrigado Professor, nunca o esqueceremos.
Fechada a porta, eis que se abriu uma janela e a corrente de ar começou logo a fazer abanar as teias de aranha e esboroar o cheiro a mofo! André Villas Boas, o charmoso, o sedutor, entrou de rompante, sacudiu as hostes logo a abrir e com 30 jogos na Primeira Liga, regressa a casa como treinador principal, depois de experiências de adjunto e observador atento do mundo futebolístico que o rodeia com Robson no Porto e Mourinho no Porto, Chelsea e Inter. Experiência nenhuma, curriculum nenhum. Mas força e vontade que bastem.

Um cientista, homem de laboratório, capaz de encher a equipa de racionalismo cínico. Ficamos à espera de ver se a capacidade evidenciada nos relatórios chegarão para vencer dentro de campo, num campo chamado Dragão e noutros campos com o emblema do Dragão. A missão não é fácil mas o entusiasmo e a ilusão são já outros. E a falta de dinheiro e a armadilha montada pelos empresários fazem anunciar nomes lusos e jovens, grande parte deles da formação. Villas Boas parece caído do Céu. Esperemos que caia de pé e que tudo se traduza em vitórias dentro de campo. Precisamos delas, precisamos que a Direcção se reencontre e que os adeptos voltem, ao estádio e ao apoio racional da equipa. E de gente comprometida, que ajude e que queira vencer. Aqui. Já vende bem mais do que Paulo Sérgio e até o Jesus já treme, desconhecendo-lhe ou dizendo desconhecer as benfeitorias. Que ainda estão no papel, mas que estão prometidas para dentro de campo. Isto promete. A ver vamos.

domingo, 13 de junho de 2010

Laporta e à la Porto

Hoje à noite o Barcelona terá novo presidente. Quase 7 anos depois da eleição para o 1º de 2 mandatos, Joan Laporta deixará, assim, a presidência do melhor clube do Mundo!


Termina um ciclo na mítica instituição da cidade condal e um novo começa. Termina sobretudo um consulado marcado pela polémica, por inúmeras e ferozes críticas, mas um período de muitas e gloriosas conquistas. Laporta surgiu, ainda nos anos 90, como sócio irreverente e disposto a marcar época. Forçou moções de censura (as mesmas que o debilitariam, ainda que não o tenham tombado), integrou candidaturas à presidência mas só quando avançou sozinho, mais maduro, mais consciente da realidade barcelonista e rodeado de jovens valores é que triunfou. E, curiosamente, de Sandro Rosell, a princípio aliado, depois adversário, crítico feroz, arqui-rival e mais que certo novo presidente, logo ao final do dia. Em 7 anos, Laporta herdou uma casa ímpar mas imersa na confusão e na rapina, longe do fulgor que hoje vive, sobrevivente às lideranças de Núñez e Gaspart, e tornou-a num autêntico império mundial. Sete anos volvidos, ciclo perfeito, o Barcelona é aquilo que Laporta tanto quis: mès que un club! Foram 2 campeonatos, 2 taças, 2 supertaças e 1 Euroliga no básquete; 1 campeonato, 3 taças, 2 supertaças e 1 Taça da Europa em andebol; 7 campeonatos, 2 taças, 4 supertaças, 4 Ligas dos Campeões, 4 Taças da Europa e 2 Taças Intercontinentais em hóquei; e, sobretudo, 4 campeonatos, 1 Taça, 3 supertaças, 2 Ligas dos Campeões, 1 Supertaça Europeia e 1 Mundial de Clubes em futebol. É muita coisa.


Mas mais do que isso, foi aquilo em que Laporta conseguiu tornar este Barcelona. Continua a ser uma instituição que não tem patrocínio nas camisolas, mas que paga para carregar as insígnias da UNICEF nas mesmas; tem escolas de formação nas várias modalidades que parecem viveiros que não param de dar peixe miúdo com classe de graúdo, e mundial; tem uma equipa de futebol, com jogadores como Valdés, Daniel Alves, Piqué, Puyol, Xavi, Iniesta, Messi, Pedro, etc, etc, que nem se questionam se valerá a pena sair, para tentar outros campeonatos e novas experiências (já ninguém coloca, sequer, a hipótese Madrid!), pois estão no topo; o carisma social que a instituição assume, a nível local, regional, nacional, europeu e mundial.
E aqui me foco e faço a ponte para a realidade nacional e, sobretudo, para a realidade daquele clube que mais se assemelha ao Barça em Portugal: o Porto!
Laporta fez tudo isto ao Barcelona mas também usou muito a instituição para se guindar. As coisas são assim, os homens nutrem (mantendo, desbaratando ou engrandecendo) as instituições e estas fazem os homens. Laporta engrandeceu o Barça, quase mitificando-o (lembre-se o 2009 do futebol!); o clube guindou Laporta. Foi polémico e nunca deixará de o ser, até porque chegou ao patamar de Cruyff, nunca desaparecendo e dizendo sempre o que quer. Exponenciou, sobretudo , o clube ao nível da cidade e da sua história, eterna vice-capital desde a união das várias Espanhas, há alguns séculos. Mais do que isso, tornou-o símbolo da cidade e estandarte do orgulho e honra da mesma, desfraldando-o sempre que foi hora de brindar a cidade, de se alegrar com ela pelos feitos mútuos e, acima de tudo, de a representar na luta moral e política a nível autonómico, da região, e nacional. O Barcelona é a cidade e é a Catalunha, e todos têm alçado a voz, com crescente força, que são mais isso do que Espanha. Sem julgar objectivos, nem meios utilizados, nem os fins procurados, o Barcelona não deixa de representar o brio de uma cidade mítica e de enobrecer as suas gentes, o seu passado, o seu presente e, desde já, o seu futuro. Alberga jovens, educa-os e instrui-os desde cedo nos caminhos do barcelonismo, da diferença catalã e fá-los, conforme vão crescendo, dignos defensores da causa e da alma autonómica. Podem nunca chegar à desagregação para com Madrid, mas que fortalecem os laços institucionais, os vínculos com a cidade e a região e se alçam com firmeza com a sua identidade e raízes bem firmes e elevadas, isso não haja dúvida.


Não sei se com isso se pacificam as massas, pois a desordem e a exultância irreverente nem sempre são benéficas. Basta ver as costumeiras detenções em noites de festa do clube, devido a estragos e desacatos por toda a cidade. Mas que a força da cidade e da região estão hoje mais vincadas estão, e isso é vital em dias em que a Velha Europa se contorce atrofiada a vários níveis e em que é mais que necessária a mobilização e a dinâmica económica, política, social e até cultural. Barcelona é tudo isto nos dias que correm, graças muito a Laporta. E o Porto, cidade e clube, e o Norte não.
Atrofiam com a Europa, de braço dado com a inércia, com a incapacidade, a incompetência e o imobilismo. Em poucas décadas passamos da vanguarda para o esquecimento europeu. A cidade contorce-se. Não tendo para onde crescer, necessita sempre de estrebuchar para não implodir, sempre assim foi e não o tem sido com a força e dinâmica necessárias. Necessita reagir, com inteligência e muita vontade, emoção e carácter. E aqui o clube deve emergir e ser aquilo que o Barça é, ou, pelo menos, tentar ser. Laporta sacudiu, honrou a cidade e a região e deu o peito às balas forçando o combate com o outro lado da barricada, qualquer que ele seja. O Porto não o tem feito. E não tem que ficar à espera do Presidente da Câmara. Tem que o ser por si próprio, com o actual presidente, noutro formato claramente, ou com outro. Mas um Porto mais capaz e dinâmico, mais reaccionário, mais da sua cidade e ela mais dele, mais albergue dos jovens e da sua formação e instrução, não para um dia os vender, ou ao seu talento, mas para os fazer seus e deste Norte. Ciosos regedores desta pátria, destas raízes e desta identidade que deu origem ao país há 1200 anos. Ainda que daqui saiam, embaixadores desta pátria, dignos da mesma. Mantenedores de tradições e dínamos do seu progresso e do seu presente, alicerces do seu futuro, mais ou menos glorioso. Não queremos um Porto, clube, desta sad, destes empresários ou destes mercenários que preferem sair, seja para onde for, para melhorar condições de vida. Queremos um Porto de quem o queira, de quem o honre e de quem o queira melhorar. Sacudir da modorra e revitalizá-lo, como quem trouxe a movida aos Clérigos e outras tantas maravilhas, apenas citando a última. Mostrar ao país e ao Mundo, que o Porto não são as tramóias, as fortunas de uns poucos ou as parolices de outros; mas as gentes e as instituições que enobrecem esta cidade, que representa e faz mover o Norte.
Laporta foi isto em Barcelona e será mais difícil do que se julga igualá-lo ou até suplantá-lo. Que o Porto também queira ser assim. A bem de tudo e de todos.