
Termina um ciclo na mítica instituição da cidade condal e um novo começa. Termina sobretudo um consulado marcado pela polémica, por inúmeras e ferozes críticas, mas um período de muitas e gloriosas conquistas. Laporta surgiu, ainda nos anos 90, como sócio irreverente e disposto a marcar época. Forçou moções de censura (as mesmas que o debilitariam, ainda que não o tenham tombado), integrou candidaturas à presidência mas só quando avançou sozinho, mais maduro, mais consciente da realidade barcelonista e rodeado de jovens valores é que triunfou. E, curiosamente, de Sandro Rosell, a princípio aliado, depois adversário, crítico feroz, arqui-rival e mais que certo novo presidente, logo ao final do dia. Em 7 anos, Laporta herdou uma casa ímpar mas imersa na confusão e na rapina, longe do fulgor que hoje vive, sobrevivente às lideranças de Núñez e Gaspart, e tornou-a num autêntico império mundial. Sete anos volvidos, ciclo perfeito, o Barcelona é aquilo que Laporta tanto quis: mès que un club! Foram 2 campeonatos, 2 taças, 2 supertaças e 1 Euroliga no básquete; 1 campeonato, 3 taças, 2 supertaças e 1 Taça da Europa em andebol; 7 campeonatos, 2 taças, 4 supertaças, 4 Ligas dos Campeões, 4 Taças da Europa e 2 Taças Intercontinentais em hóquei; e, sobretudo, 4 campeonatos, 1 Taça, 3 supertaças, 2 Ligas dos Campeões, 1 Supertaça Europeia e 1 Mundial de Clubes em futebol. É muita coisa.

Mas mais do que isso, foi aquilo em que Laporta conseguiu tornar este Barcelona. Continua a ser uma instituição que não tem patrocínio nas camisolas, mas que paga para carregar as insígnias da UNICEF nas mesmas; tem escolas de formação nas várias modalidades que parecem viveiros que não param de dar peixe miúdo com classe de graúdo, e mundial; tem uma equipa de futebol, com jogadores como Valdés, Daniel Alves, Piqué, Puyol, Xavi, Iniesta, Messi, Pedro, etc, etc, que nem se questionam se valerá a pena sair, para tentar outros campeonatos e novas experiências (já ninguém coloca, sequer, a hipótese Madrid!), pois estão no topo; o carisma social que a instituição assume, a nível local, regional, nacional, europeu e mundial.
E aqui me foco e faço a ponte para a realidade nacional e, sobretudo, para a realidade daquele clube que mais se assemelha ao Barça em Portugal: o Porto!
Laporta fez tudo isto ao Barcelona mas também usou muito a instituição para se guindar. As coisas são assim, os homens nutrem (mantendo, desbaratando ou engrandecendo) as instituições e estas fazem os homens. Laporta engrandeceu o Barça, quase mitificando-o (lembre-se o 2009 do futebol!); o clube guindou Laporta. Foi polémico e nunca deixará de o ser, até porque chegou ao patamar de Cruyff, nunca desaparecendo e dizendo sempre o que quer. Exponenciou, sobretudo , o clube ao nível da cidade e da sua história, eterna vice-capital desde a união das várias Espanhas, há alguns séculos. Mais do que isso, tornou-o símbolo da cidade e estandarte do orgulho e honra da mesma, desfraldando-o sempre que foi hora de brindar a cidade, de se alegrar com ela pelos feitos mútuos e, acima de tudo, de a representar na luta moral e política a nível autonómico, da região, e nacional. O Barcelona é a cidade e é a Catalunha, e todos têm alçado a voz, com crescente força, que são mais isso do que Espanha. Sem julgar objectivos, nem meios utilizados, nem os fins procurados, o Barcelona não deixa de representar o brio de uma cidade mítica e de enobrecer as suas gentes, o seu passado, o seu presente e, desde já, o seu futuro. Alberga jovens, educa-os e instrui-os desde cedo nos caminhos do barcelonismo, da diferença catalã e fá-los, conforme vão crescendo, dignos defensores da causa e da alma autonómica. Podem nunca chegar à desagregação para com Madrid, mas que fortalecem os laços institucionais, os vínculos com a cidade e a região e se alçam com firmeza com a sua identidade e raízes bem firmes e elevadas, isso não haja dúvida.

Não sei se com isso se pacificam as massas, pois a desordem e a exultância irreverente nem sempre são benéficas. Basta ver as costumeiras detenções em noites de festa do clube, devido a estragos e desacatos por toda a cidade. Mas que a força da cidade e da região estão hoje mais vincadas estão, e isso é vital em dias em que a Velha Europa se contorce atrofiada a vários níveis e em que é mais que necessária a mobilização e a dinâmica económica, política, social e até cultural. Barcelona é tudo isto nos dias que correm, graças muito a Laporta. E o Porto, cidade e clube, e o Norte não.
Atrofiam com a Europa, de braço dado com a inércia, com a incapacidade, a incompetência e o imobilismo. Em poucas décadas passamos da vanguarda para o esquecimento europeu. A cidade contorce-se. Não tendo para onde crescer, necessita sempre de estrebuchar para não implodir, sempre assim foi e não o tem sido com a força e dinâmica necessárias. Necessita reagir, com inteligência e muita vontade, emoção e carácter. E aqui o clube deve emergir e ser aquilo que o Barça é, ou, pelo menos, tentar ser. Laporta sacudiu, honrou a cidade e a região e deu o peito às balas forçando o combate com o outro lado da barricada, qualquer que ele seja. O Porto não o tem feito. E não tem que ficar à espera do Presidente da Câmara. Tem que o ser por si próprio, com o actual presidente, noutro formato claramente, ou com outro. Mas um Porto mais capaz e dinâmico, mais reaccionário, mais da sua cidade e ela mais dele, mais albergue dos jovens e da sua formação e instrução, não para um dia os vender, ou ao seu talento, mas para os fazer seus e deste Norte. Ciosos regedores desta pátria, destas raízes e desta identidade que deu origem ao país há 1200 anos. Ainda que daqui saiam, embaixadores desta pátria, dignos da mesma. Mantenedores de tradições e dínamos do seu progresso e do seu presente, alicerces do seu futuro, mais ou menos glorioso. Não queremos um Porto, clube, desta sad, destes empresários ou destes mercenários que preferem sair, seja para onde for, para melhorar condições de vida. Queremos um Porto de quem o queira, de quem o honre e de quem o queira melhorar. Sacudir da modorra e revitalizá-lo, como quem trouxe a movida aos Clérigos e outras tantas maravilhas, apenas citando a última. Mostrar ao país e ao Mundo, que o Porto não são as tramóias, as fortunas de uns poucos ou as parolices de outros; mas as gentes e as instituições que enobrecem esta cidade, que representa e faz mover o Norte.
Laporta foi isto em Barcelona e será mais difícil do que se julga igualá-lo ou até suplantá-lo. Que o Porto também queira ser assim. A bem de tudo e de todos.
Eu até gostava de dizer alguma coisa mas concordo a 200%
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