No Sábado o Mourinho foi campeão da Europa.
No Sábado o Mourinho chorou abraçado ao Materazzi.
Hoje faz seis anos que o Mourinho foi campeão da Europa em Gelsenkirchen, com o Porto.
Três factos que se entrecruzam.
No Sábado ganhou a melhor equipa. Como se esperava. A rigidez do Bayern e do seu treinador não teve hipóteses face a um rival sempre bem organizado, muito unido e bem plantado a defender bem como sempre venenoso a atacar. E assim venceu com dois golos de um enorme Milito.
Um dia disse que o Mourinho não voltaria a ser campeão europeu. Esse dia faz hoje seis anos, pois pareceu-me de um tremendo mau-gosto a postura dele no final do jogo na Alemanha. Pela segunda vez o Porto chegava ao topo da Europa, guindado pelo Mourinho; já este, chegava ali pela primeira vez, guindado pelo Porto. O Porto nunca esqueceu isso; já o Mourinho esqueceu depressa. A velha questão do orgulho.
Seguiram-se seis penosos anos até o Mourinho voltar ao topo da Europa. Uma eternidade para o próprio, como se pôde ver este ano com a meia-final em Barcelona e as lágrimas após a final junto do Materazzi.
Que Mourinho é dos melhores, isso ninguém duvida. Que é um genial estratega, que pôe e dispõe as equipas em vários formatos tácticos e o rendimento é sempre alto, que é um fantástico psicólogo, que ama os seus e fá-los amá-lo e odeia os outros e fá-los odiá-lo. Mas que nem sempre é um senhor, também é inegável. Dentro e fora de campo.
O Mourinho teve todo o mérito nesta conquista. A equipa foi brilhante, sobretudo na fase a eliminar. Brilhou em Stamford Bridge, foi competente em Moscovo, abominável, ainda que com sucesso em Camp Nou e voltou a brilhar no Bernabéu. Guindou-se ao topo da Europa e soube guindar um conjunto de jogadores que já mereciam esta conquista, com um enorme e eterno Zanetti à cabeça. Mas não deixou de chorar amargamente umas horas depois.
Chorou porque foram seis anos de espera, quando ele próprio contava ter ganho 2 ou 3 vezes neste espaço de tempo. Chorou porque deixa um grupo de jogadores fantástico, e isso embeveceu Portugal, Espanha e o Mundo. Mas chorou porque se diz o melhor mas não é unânime, porque ganha as taças mas não ganha o verdadeiro respeito e admiração. Porque não lhe fica bem dizer que é o melhor. Porque não lhe fica bem dizer que tem vergonha do que ganha e vai ganhar o mesmo para Madrid. Porque não lhe fica bem gabar o Milito e pô-lo nos píncaros quando o mesmo jogador foi anunciado há cerca de um ano, logo após o seu primeiro ano no Inter, como contratação do presidente Moratti e veio logo a público criticar a compra, pois era jogador que não lhe interessava. Nem lhe ficou bem sair como saiu do Leiria a meio da época; sair como saiu do Porto; sair como saiu, despedido, do Chelsea; nem sair do Inter como sai, após um título europeu, criticado pelo presidente Moratti por umas lágrimas que o mesmo esperava não serem de sentimento de culpa, vindas a público, tal como o anúncio da saída, no timing errado. Mourinho é um mercenário. Ganhador, mas que ganha para ele próprio. Mas só ganha as taças, não a haura gloriosa que as rodeia e mitifica. E chorou, porque nestes seis anos foi despedido do Chelsea e ganhou em Itália mas não triunfou em Itália, pátria que nunca foi a sua casa como ele disse.
Termino com estes dois anos de Itália, período da sua carreira que mais o fez chorar no Sábado. Mourinho triunfou lá, mas da maneira costumeira, apenas com Taças. Itália é um país à parte. Começa por ser uma nação onde há mais gente a ver teatro do que futebol. Ao contrário de Inglaterra, de fundo tribal, nasceu da junção das suas ricas e dinâmicas repúblicas urbanas burguesocomunais, insertas em opulentos e poderosos ducados e condados, magistralmente governados por cimeiras torres e homens de enorme fibra. E o seu futebol é herdeiro destas raízes. Ainda que mais afastado do grande topo europeu, ainda que vendo os seus grandes clubes arredados de maiores méritos continentais, não há futebol na Europa com maior identidade própria, nem com mais jovens jogadores e velhos jogadores, nem com maior senso de reconhecimento dos grandes homens. Em Itália continuam a surgir grandes talentos, lançados sem medo pelos seus espertos treinadores. Em Itália continuam a envelhecer os grandes e lendários jogadores, rendendo-se o país ao reconhecido talento de lendas como Maldini, Baggio ou Costacurta. Não há país que lance tantos jovens, que proporcione a tantos velhos jogadores minutos de futebol nem que tenha tantos treinadores nacionais de qualidade, bem como antigos jogadores a treinadores. Nem que agarre tanto as suas velhas glórias para as suas estruturas de futebol. Veja-se o Inter: tem presidentes honorários, como Facchetti (entretanto falecido), tal como Mazzola e outros e Moratti não precisa deles; tem um Luíz Suárez, espanhol, como olheiro, há 50 anos, desde que terminou lá a sua carreira; tem um Marco Branca como director desportivo. E o futuro: entregue a Mihaijlovic, ex-jogador, ou Hogdson, ex-treinador, nos idos de 90. Porque é que Mourinho não entrou nesta senda de reconhecimento? Porque não o quis, pois a sua postura não condiz com esta realidade. Itália deu-lhe 2 campeonatos, 1 Taça, 2 Supertaças e 1 Liga dos Campeões, mas não lhe deu a vénia que dá a Prandelli pelo trabalho com os miúdos, ou a Allegri, treinador do ano, com o seu modesto Cagliari, no 1º ano do Mourinho. É o país do CalcioCaos, é, mas é o país onde há coragem para fazer coisas dessas. Por isso Itália nunca foi a sua pátria e as saudades de Inglaterra foram mais fortes, tal como o apelo do Real. Até porque a eliminação, no ano passado, da Champions foi horrorosa e este campeonato foi ganho à custa de uma Juve que não existe, de um Milan que enjeitou a liderança em 3 fins-de-semana seguidos em que empatou em casa e de uma Roma, que começou a época a despedir um treinador, Spalletti, ressurgiu, chegou ao topo e perdeu a Série A com uma derrota em casa com a Sampdoria do Pazzini a 15 dias do seu termo. E durante muitas jornadas o Inter empatou em casa e fora, onde também perdeu, sem que o Mourinho tivesse arte ou engenho para dar a volta a um futebol e a um campeonato únicos.
Mourinho é dos melhores, é. Comove o Mundo quando chora, sim. Mas chora porque poucos gostam dele, porque Abramovich despediu-o e porque para o ano já ninguém se lembra dele em Itália. A não ser assim, porquê festejar esta Champions como se fosse a 1a, ainda que tenha dito que o sentimento foi igual a Gelsenkirchen?
Em Madrid tudo poderá acontecer. Com o seu futebol nunca fará os 96 pontos de Pellegrini. E o elástico estará esticado ao máximo, para ele e para o clube. Aguentará mais 6 anos sem ganhar nada e o Madrid mais 1 ou 2?
Ainda assim, glória ao treinador vencedor. O homem não interessa a ninguém.
Sem comentários:
Enviar um comentário