No Porto saiu Jesualdo Ferreira. Com ares de ter sido uma das decisões mais difíceis dos últimos anos, mas na verdade não. Há muito que o experiente técnico tinha o destino traçado, era óbvio. A sua permanência no clube prolongou-se para além da norma, os 2 anos do Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira, Fernando Santos e José Mourinho e isso foi benéfico, pois daí adveio um Tetra, mas também foi trágico, com a falhada conquista do Penta.

Quem se habituou a ver o Porto do Jesualdo cedo se apercebeu do seu profissionalismo, do seu empenho, de toda a sabedoria acumulada e de toda a energia posta em conquistar os títulos que figuram ou brilharam longe durante toda uma carreira. A sua chegada, para o próprio, foi como uma recompensa dos deuses da bola, pelo trabalho feito ao longo de uma carreira entre selecções e equipas menores e maiores, e pelos dissabores vividos em tardes como a do Gondomar na Luz, para a Taça. Assim, foi natural a alegria manifestada pelos títulos de campeão nacional, bem como a mitificação do homem a partir do momento em que se tornou o primeiro treinador pátrio a ganhar três campeonatos de enfiada! Nascido em Mirandela, desde cedo se associou Jesualdo às selecções e a Queirós e ao Benfica e a Toni. Porém, isso não foi impedimento para a sad apostar em si e a prova é que Jesualdo se mostrou um grande portista. Aprendeu a gostar do clube, da sua cultura e modus vivendi e operandi, rendido à competência da estrutura, agradecida, em plano de destaque na hora da despedida. Contudo, isso não foi suficiente para granjear o respeito e a admiração plena dos adeptos. Até ao Tetra foi mesmo visto de soslaio na maior parte do tempo e só mesmo aquela generosa atitude do Bruno Alves na Figueira da Foz, na noite de Todos-os-Santos de 2008, após a derrota com a Naval, o terão salvado da saída forçada do comando técnico dos Dragões.
Há que destacar, todavia, a postura que sempre assumiu e o legado que deixou. Para mim, foi o treinador da década, já o disse várias vezes. Mourinho pôs e dispôs; Jesualdo só teve direito a refazer. Não me lembro de ninguém com tanto sucesso por essa Europa fora, quando em 3 defesos lhe sonegam, às prestações, Pepe e Anderson, Bosingwa, Assunção e Quaresma, Lucho e Lisandro! O estilo não foi o melhor, ou aquele que o século XXI exige. Sobrou pela discrição e abnegação, faltou o arrebatamento das massas e o charme que hoje suplanta a valia técnica. Sic transit gloria mundi!
E só assim se compreende a sua saída. O Porto não foi brilhante a jogar nestes 4 anos. Relembraremos sempre aquela primeira parte em Stamford Bridge, quando o Quaresma nos fez sonhar e o Helton nos acordou à força após o intervalo; ou os 90m de Manchester, onde o Cissokho e seus pares pareciam extraterrestres! Mas faltou mais posse de bola, mais futebol de contenção, mais bola escondida do adversário, menos hierarquia na baliza e noutros fixos no onze, ainda que bem longe da forma. Mas foi um Porto muito competente e sério, dominador dentro de portas e digno representante nacional nessa Europa do futebol.
Perde-se um grande senhor do nosso futebol, uma velha raposa, cheia de sabedoria e argúcia, mas o desgaste era evidente e o Jesualdo estava muito só. Sem a confiança e o respeito dos jogadores mais preponderantes, sem a cobertura da Direcção e o respaldo dos adeptos. Sobretudo dos que nunca souberam apreciar a sua competência e trabalho, sempre assobiaram e viram no Mourinho e em Jorge Jesus o que é bom. Ou talvez não! Jesualdo não merecia sair assim, mas é o futebol que temos, a sad que temos e o mundo que vivemos. Merecia sair em grande, saiu de forma cinzenta, o esforço para maquilhar a retirada foi valoroso mas falacioso também. Obrigado Professor, nunca o esqueceremos.
Fechada a porta, eis que se abriu uma janela e a corrente de ar começou logo a fazer abanar as teias de aranha e esboroar o cheiro a mofo! André Villas Boas, o charmoso, o sedutor, entrou de rompante, sacudiu as hostes logo a abrir e com 30 jogos na Primeira Liga, regressa a casa como treinador principal, depois de experiências de adjunto e observador atento do mundo futebolístico que o rodeia com Robson no Porto e Mourinho no Porto, Chelsea e Inter. Experiência nenhuma, curriculum nenhum. Mas força e vontade que bastem.

Um cientista, homem de laboratório, capaz de encher a equipa de racionalismo cínico. Ficamos à espera de ver se a capacidade evidenciada nos relatórios chegarão para vencer dentro de campo, num campo chamado Dragão e noutros campos com o emblema do Dragão. A missão não é fácil mas o entusiasmo e a ilusão são já outros. E a falta de dinheiro e a armadilha montada pelos empresários fazem anunciar nomes lusos e jovens, grande parte deles da formação. Villas Boas parece caído do Céu. Esperemos que caia de pé e que tudo se traduza em vitórias dentro de campo. Precisamos delas, precisamos que a Direcção se reencontre e que os adeptos voltem, ao estádio e ao apoio racional da equipa. E de gente comprometida, que ajude e que queira vencer. Aqui. Já vende bem mais do que Paulo Sérgio e até o Jesus já treme, desconhecendo-lhe ou dizendo desconhecer as benfeitorias. Que ainda estão no papel, mas que estão prometidas para dentro de campo. Isto promete. A ver vamos.
Confesso estar entusiasmadissimo com o Villas Boas. Como tenho dito, acho o homem certo para entusiasmar as hostes azuis e brancas. A SAD apenas precisa de trazer um/dois grandes nomes para nos voltar a dar ilusão. Para mim, este ano, a 2ª Liga da Europa pode ser nossa e, para o ano, a ver vamos. Certo certo, é sermos campeões!
ResponderEliminar