terça-feira, 15 de junho de 2010

Jesualdo e Villas Boas

Jorge Jesus chegou no ano passado ao Benfica, viu e venceu. Domingos também, no Braga, ainda que não tenha alçado nenhum troféu. Porto e Sporting falharam e mudaram de timoneiros, Paulo Sérgio entrou no Sporting, Villas Boas no Porto.
No Porto saiu Jesualdo Ferreira. Com ares de ter sido uma das decisões mais difíceis dos últimos anos, mas na verdade não. Há muito que o experiente técnico tinha o destino traçado, era óbvio. A sua permanência no clube prolongou-se para além da norma, os 2 anos do Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira, Fernando Santos e José Mourinho e isso foi benéfico, pois daí adveio um Tetra, mas também foi trágico, com a falhada conquista do Penta.

Quem se habituou a ver o Porto do Jesualdo cedo se apercebeu do seu profissionalismo, do seu empenho, de toda a sabedoria acumulada e de toda a energia posta em conquistar os títulos que figuram ou brilharam longe durante toda uma carreira. A sua chegada, para o próprio, foi como uma recompensa dos deuses da bola, pelo trabalho feito ao longo de uma carreira entre selecções e equipas menores e maiores, e pelos dissabores vividos em tardes como a do Gondomar na Luz, para a Taça. Assim, foi natural a alegria manifestada pelos títulos de campeão nacional, bem como a mitificação do homem a partir do momento em que se tornou o primeiro treinador pátrio a ganhar três campeonatos de enfiada! Nascido em Mirandela, desde cedo se associou Jesualdo às selecções e a Queirós e ao Benfica e a Toni. Porém, isso não foi impedimento para a sad apostar em si e a prova é que Jesualdo se mostrou um grande portista. Aprendeu a gostar do clube, da sua cultura e modus vivendi e operandi, rendido à competência da estrutura, agradecida, em plano de destaque na hora da despedida. Contudo, isso não foi suficiente para granjear o respeito e a admiração plena dos adeptos. Até ao Tetra foi mesmo visto de soslaio na maior parte do tempo e só mesmo aquela generosa atitude do Bruno Alves na Figueira da Foz, na noite de Todos-os-Santos de 2008, após a derrota com a Naval, o terão salvado da saída forçada do comando técnico dos Dragões.
Há que destacar, todavia, a postura que sempre assumiu e o legado que deixou. Para mim, foi o treinador da década, já o disse várias vezes. Mourinho pôs e dispôs; Jesualdo só teve direito a refazer. Não me lembro de ninguém com tanto sucesso por essa Europa fora, quando em 3 defesos lhe sonegam, às prestações, Pepe e Anderson, Bosingwa, Assunção e Quaresma, Lucho e Lisandro! O estilo não foi o melhor, ou aquele que o século XXI exige. Sobrou pela discrição e abnegação, faltou o arrebatamento das massas e o charme que hoje suplanta a valia técnica. Sic transit gloria mundi!
E só assim se compreende a sua saída. O Porto não foi brilhante a jogar nestes 4 anos. Relembraremos sempre aquela primeira parte em Stamford Bridge, quando o Quaresma nos fez sonhar e o Helton nos acordou à força após o intervalo; ou os 90m de Manchester, onde o Cissokho e seus pares pareciam extraterrestres! Mas faltou mais posse de bola, mais futebol de contenção, mais bola escondida do adversário, menos hierarquia na baliza e noutros fixos no onze, ainda que bem longe da forma. Mas foi um Porto muito competente e sério, dominador dentro de portas e digno representante nacional nessa Europa do futebol.
Perde-se um grande senhor do nosso futebol, uma velha raposa, cheia de sabedoria e argúcia, mas o desgaste era evidente e o Jesualdo estava muito só. Sem a confiança e o respeito dos jogadores mais preponderantes, sem a cobertura da Direcção e o respaldo dos adeptos. Sobretudo dos que nunca souberam apreciar a sua competência e trabalho, sempre assobiaram e viram no Mourinho e em Jorge Jesus o que é bom. Ou talvez não! Jesualdo não merecia sair assim, mas é o futebol que temos, a sad que temos e o mundo que vivemos. Merecia sair em grande, saiu de forma cinzenta, o esforço para maquilhar a retirada foi valoroso mas falacioso também. Obrigado Professor, nunca o esqueceremos.
Fechada a porta, eis que se abriu uma janela e a corrente de ar começou logo a fazer abanar as teias de aranha e esboroar o cheiro a mofo! André Villas Boas, o charmoso, o sedutor, entrou de rompante, sacudiu as hostes logo a abrir e com 30 jogos na Primeira Liga, regressa a casa como treinador principal, depois de experiências de adjunto e observador atento do mundo futebolístico que o rodeia com Robson no Porto e Mourinho no Porto, Chelsea e Inter. Experiência nenhuma, curriculum nenhum. Mas força e vontade que bastem.

Um cientista, homem de laboratório, capaz de encher a equipa de racionalismo cínico. Ficamos à espera de ver se a capacidade evidenciada nos relatórios chegarão para vencer dentro de campo, num campo chamado Dragão e noutros campos com o emblema do Dragão. A missão não é fácil mas o entusiasmo e a ilusão são já outros. E a falta de dinheiro e a armadilha montada pelos empresários fazem anunciar nomes lusos e jovens, grande parte deles da formação. Villas Boas parece caído do Céu. Esperemos que caia de pé e que tudo se traduza em vitórias dentro de campo. Precisamos delas, precisamos que a Direcção se reencontre e que os adeptos voltem, ao estádio e ao apoio racional da equipa. E de gente comprometida, que ajude e que queira vencer. Aqui. Já vende bem mais do que Paulo Sérgio e até o Jesus já treme, desconhecendo-lhe ou dizendo desconhecer as benfeitorias. Que ainda estão no papel, mas que estão prometidas para dentro de campo. Isto promete. A ver vamos.

1 comentário:

  1. Confesso estar entusiasmadissimo com o Villas Boas. Como tenho dito, acho o homem certo para entusiasmar as hostes azuis e brancas. A SAD apenas precisa de trazer um/dois grandes nomes para nos voltar a dar ilusão. Para mim, este ano, a 2ª Liga da Europa pode ser nossa e, para o ano, a ver vamos. Certo certo, é sermos campeões!

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